Arquivo da Categoria: New Tecnhology

Cruzamento entre o património cultural, minorias e humanidades digitais

Capa do podcast, episódio número 5, onde se lê o título do podcast e está representado um microfone de mesa

O quinto episódio do podcast “Conversations around Cultural Heritage” (produzido no âmbito do projeto TRANSITION) já se encontra disponível: YouTube, Spotify e Anghami.

“At the intersection of cultural heritage, minorities, and digital humanities“ é o título deste episódio, no qual Ana Carvalho conversa com a historiadora e professora Ana Sofia Ribeiro da Universidade de Évora sobre minorias, património cultural e humanidades digitais.

Ana Sofia Ribeiro começa por refletir sobre o termo “minorias”, o seu significado ao longo do tempo e a forma como, atualmente, este se encontra também associado à ideia de subalternidade.

Explora ainda o conceito de humanidades digitais e identifica três desafios fundamentais que surgem na sua aplicação no campo do património cultural: desafios técnicos, sociais e éticos.

Ribeiro destaca igualmente o impacto do projeto Transition na promoção de mudanças nos currículos académicos da área da educação patrimonial na Região do Curdistão, no Iraque, e no Iémen, contribuindo assim para uma maior visibilidade do património cultural das minorias.

LINKS E REFERÊNCIAS ÚTEIS

Barros, Maria Filomena Lopes de. 2011. “Ethno-Religious Minorities.” In The Historiography of Medieval Portugal (c. 1950-2010), ed. by Maria de Lourdes Rosa, Bernardo Vasconcelos e Sousa, and Maria João Branco, 571–589. IEM – Instituto de Estudos Medievais. https://books.openedition.org/cidehus/29683

Capotorti, Francesco. 1979. Study on the Rights of Persons Belonging to Ethnic, Religious and Linguistic Minorities. Geneva: UN. https://digitallibrary.un.org/record/10387?v=pdf

Noel, Vernelle A. A. 2017. “Digitally Displaying and Interacting with Historic Artifacts of Spatial, Temporal, Corporeal, and Kinetic dimension.” Studies on Digital Heritage (1, 2): 251-268. https://doi.org/10.14434/sdh.v1i2.23277

Roman Melnyk, Galyna Volkova, Mariia Hvozdetska, Oleksii Bashmanivskyi, and Iryna Perederii. 2025. “Digital Transformation of Cultural Heritage: Prospects and Threats.” International Journal on Culture, History, and Religion 7 (SI1): 1143-1168. https://doi.org/10.63931/ijchr.v7iSI1.381

FAIR Principles (Findable, Accessible, Interoperable and Reusable): https://www.go-fair.org/fair-principles/

Project TRANSITION (2025-2026) – “Preserving the Tangible and Intangible Cultural Heritage of Minority Communities in the Kurdistan Region of Iraq and in Yemen, through Capacity Building of University Staff Members”. https://www.project-transition.eu

BIOS

ANA SOFIA RIBEIRO

She is assistant researcher at CIDEHUS, in Évora University (Portugal). She is an early modern historian, also working in the field of digital humanities. She holds a PhD in History (2011) and a Master in Local and Regional Studies (2008) at the University of Porto. Her main research areas are early modern Iberian business networks, gender and violence in the Portuguese world, and digital humanities. In this field she works with historical GIS (Geographic Information Systems), social network analysis and NLP (Natural Language Processing) where she works in information extraction mechanisms from historical sources.

ANA CARVALHO

Museologist and researcher at CIDEHUS, University of Évora (Portugal), where she works on museums and cultural heritage. She trained in museology and holds a PhD in the field. Her work focuses on how museums and heritage relate to society and public policies. She is co-founder and editor-in-chief of MIDAS – Museums and Interdisciplinary Studies (“Museus e Estudos Interdisciplinares”) and hosts the award-winning blog “No Mundo dos Museus”, dedicated to making museum topics accessible to wider audiences. Her work has received several awards from the Portuguese Association of Museology. She is also a researcher at the UNESCO Chair in Intangible Heritage and coordinates the research group “Heritage(s) and Literacies” at CIDEHUS.

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Conversations around Cultural Heritage é um podcast que explora a forma como a diversidade cultural pode contribuir para moldar um futuro mais inclusivo. Através de conversas com especialistas, este podcast fala da importância do património nos dias de hoje, especialmente para comunidades diversas na Região do Curdistão do Iraque e no Iémen.
Os temas abordados incluem as principais ameaças ao património cultural, as abordagens à preservação e a participação das comunidades, bem como os desafios relacionados com a diversidade cultural, a inclusão e a inovação no ensino e formação do património.

Este podcast é produzido no âmbito do projeto TRANSITION, cofinanciado pelo programa Erasmus+ (KA2 – Capacity Building in Higher Education, Strand 1, Grant Agreement No. 101178520) da União Europeia.

Guião e narração: Ana Carvalho (Universidade de Évora, CIDEHUS); Design da capa: Sara Oldani (UNIMED); Edição de som e gestão de plataformas: Luísa Rocha (Universidade de Évora, CIDEHUS); Banda sonora: Imagine, de Lukrembo.

Financiado pela União Europeia. As opiniões e pontos de vista expressos são, no entanto, exclusivamente da responsabilidade do(s) autor(es) e não refletem necessariamente os da União Europeia nem os da Agência de Execução Europeia da Educação e da Cultura (EACEA). Nem a União Europeia nem a EACEA podem ser responsabilizadas pelos mesmos.

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Projeto InMAP – Memórias e Arquivos: Mapear o (In)tangível

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O projeto InMAP – Memórias e Arquivos: Mapear o (In)tangível já tem website onde pode encontrar mais informação e acompanhar as actividades do projeto: https://www.inmap.uevora.pt/

O projeto InMAP pretende mapear e analisar a situação dos arquivos e repositórios ligados à documentação do património cultural imaterial e à história oral que têm sido criados nas últimas duas décadas por instituições ligadas ao património (e.g., museus, bibliotecas, arquivos, universidades, associações).

O projeto é coordenado por Ana Carvalho (Universidade de Évora). É desenvolvido pelo CIDEHUS no âmbito do programa Science4Policy 2023 (S4P-23): Concurso de Estudos de Ciência para as Políticas Públicas, uma iniciativa do PlanAPP, Centro de Competências de Planeamento, de Políticas e de Prospetiva da Administração Pública, em parceria com a Fundação para a Ciência e Tecnologia, sendo financiado pelo Plano de Recuperação e Resiliência.

O InMAP tem o apoio da Cátedra UNESCO em Património Imaterial e Saber-fazer Tradicional: Ligando Patrimónios da Universidade de Évora e conta com a colaboração do Património Cultural, I.P. e do Observatório Português das Atividades Culturais.

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Museus e tecnologias digitais: interrogações e desafios

Fotografia de Ana Carvalho. 2024. Centro de Arte Moderna, Fundação Calouste Gulbenkian

No mês passado fui contactada por uma aluna do mestrado em Comunicação e Gestão de Indústrias Criativas (Universidade do Porto), que está a estudar a inovação nos museus portugueses, e que me pediu que respondesse a algumas questões. Estas foram as minhas respostas às perguntas enviadas, entretanto revistas.

  • Na sua opinião, quais são os maiores desafios que os museus enfrentam ao adotarem novas tecnologias, em Portugal?

Ana Carvalho (AC) − Destaco pelo menos quatro grandes desafios na adoção de tecnologias digitais: 1) a necessidade de investimento em recursos humanos, ou seja equipas capacitadas, o que significa maior investimento na formação contínua e na atualização de competências digitais (à medida de cada museu), assim como o recrutamento de novos perfis nas equipas, com conhecimentos e competências especializados; também relacionado com este último aspecto refiro a necessidade de reforço das equipas com perfis especializados em comunicação (onde se inclui a comunicação digital), um perfil ausente nas equipas de muitos museus portugueses;

2) a modernização da infraestrutura tecnológica e digital museus, o que pressupõe investimento que suporte uma maior capacidade digital; neste âmbito também seria fundamental a aposta na digitalização das colecções e na promoção do acesso;

3) a possibilidade de os museus reforçarem parcerias com outras entidades do sector cultural, tecnológico e de investigação, no sentido de promover a transferência do conhecimento tecnológico para os museus (neste contexto penso em particular nos museus nacionais), nomeadamente através de projetos-piloto e experimentação;

4) e finalmente, o desenho de políticas públicas de âmbito nacional que sejam capazes de promover o desenvolvimento do sector dos museus no âmbito da transformação digital.

  • Sei que o Projeto Mu.Sa, mesmo após a conclusão, ainda auxilia no desenvolvimento dos profissionais dos museus. Acredita ser importante manter ações para o aperfeiçoamento destes profissionais? 

AC − O projeto Mu.SA terminou em 2020, mas os resultados do projeto continuam acessíveis no website, nomeadamente um conjunto os recursos educativos em acesso aberto sobre competências digitais que poderão ser ainda úteis aos profissionais dos museus (http://www.project-musa.eu/results/oers/). Considero fundamental a aposta no desenvolvimento profissional das equipas para que os museus possam responder de forma mais eficaz aos desafios da transformação digital. Cada museu, à sua medida, em função das suas necessidades, deve apoiar o desenvolvimento de planos de formação que fomentem a literacia e a confiança digital das suas equipas.

  • Quais são as principais tendências tecnológicas que identifica para o futuro dos museus portugueses?

AC − As tendências são cada vez mais globais, é uma questão que atravessa o mundo dos museus em Portugal e noutros países. A grande tendência será certamente uma maior expansão dos museus para o digital, tal como acontece já, de um modo geral, na vida em sociedade. Os museus não serão uma exceção. O espaço físico do museu, os objetos físicos, a interação física com os visitantes, tudo isso continua e continuará a ser fundamental na atividade dos museus, mas deixará de ser a única prioridade dos museus. Há de facto uma expansão da atividade dos museus para o digital e a necessidade de abordagens cada vez mais integradas do uso das tecnologias na prática dos museus, em que as tecnologias são entendidas como ferramentas e meios para melhor comunicar, interagir e partilhar conhecimentos e experiências.

Do ponto de vista das tecnologias propriamente ditas, é difícil antever qual será o seu desenvolvimento, quais terão maior protagonismo do que outras, a velocidade é grande. Mas diria que, a ver pelos últimos desenvolvimentos da inteligência artificial (ex. IA generativa) na sociedade (em tantos sectores), é provável que a IA ocupe também aqui um lugar proeminente na relação com os museus. A aplicação da IA nos museus já vem acontecendo, já se reflectia antes, mas os avanços dos últimos anos da IA são grandes e vão exigir também mais reflexão sobre esse impacto nos museus. E neste contexto os dilemas éticos (uso das bases de dados sem autorização, direitos de autor e propriedade intelectual, etc.) são uma parte importante que irá acompanhar essa reflexão.

Para além dos museus poderem integrar as tecnologias como ferramentas com vista a potenciar melhores experiências e interações com os públicos e, no global, uma melhor comunicação e gestão, há também um outro papel que lhes pode caber, que é o de reflectir criticamente sobre o seu uso e impacto. A exposição temporária do Museu Calouste Gulbenkian “MuseoBot: museus, democracia e inteligência artificial” (2024) coloca precisamente a tónica nesta questão e é um bom exemplo desse exercício crítico.

  • Como os museus portugueses se posicionam em relação a outros países na adoção de tecnologias digitais?

AC − É difícil responder a isso, pois não conheço estudos comparativos recentes. Além disso comparar com que países e porquê? Creio que o importante é atender e conhecer, por um lado, as grandes tendências que atravessam a sociedade, e que são também globais, e que trazem novos hábitos e comportamentos, assim como expectativas dos públicos e consumidores de cultura. E por outro lado, considerar o contexto específico de cada país (as suas características e assimetrias), de cada contexto regional ou local. Os museus actuam nessa relação com o global, com o nacional e o regional ou local, em múltiplas interações. Há, assim questões que são transversais a todos os museus, e depois a necessidade de cada museu se posicionar estrategicamente quanto à integração das tecnologias como ferramenta para cumprir a sua missão, que é também específica. Nesse sentido não há um modelo único de intervenção ou estratégia.

Ainda assim, o retrato que o projeto Mu.SA fez relativamente à forma como os museus portugueses em 2017 se relacionavam com a transformação digital era pouco estruturada e assimétrica. Não creio que isso tenha mudado muito.

  • Como vê o futuro da hiperconexão entre os museus e os seus públicos?

AC − A relação com os públicos é primordial para a estratégia e missão de cada museu, com ou sem tecnologias. Ainda assim, há uma relação evidente, um dos factores que impulsiona os museus a fazerem melhor uso das tecnologias nas suas práticas tem a ver com os públicos e as suas necessidades. As pessoas ao se relacionarem mais com as tecnologias digitais também esperam mediação digital nos museus. As pessoas enquanto públicos de museus têm expectativas! Por outro lado, os museus também reconhecem que podem melhorar a forma como comunicam, como interagem, como partilham através das tecnologias, usando-as como mais uma ferramenta de trabalho. De facto, os públicos à distância (ou públicos online/digitais, ou utilizadores) passaram a ter cada vez mais relevo para os museus e na forma como estes programam as suas atividades. Portanto, a necessidade de maior interação dos museus com os seus públicos, de múltiplas formas, seja no espaço físico, seja digital – apostando nessa interligação, porventura cada vez mais orgânica – será tendencial e expectável.

Mais sugestões de leitura:

Carvalho, Ana. 2022. «Museums, Intangible Cultural Heritage and Digital Technologies: Exploring Interactions». In Intangible Cultural Heritage and Digital Image: Portugal-Slovakia Readings, editado por Milan Konvit, Filipe Themudo Barata, Antónia Fialho Conde, e Sónia Bombico, 83–97. Évora: UNESCO Chair in Intangible Heritage and Traditional Know – How: Linking Heritage, University of Évora. http://hdl.handle.net/10174/32369

Carvalho, Ana. 2021. «Os Museus e o Digital: O Lugar das Políticas Públicas». Revista Inverso, n.º 3 (Junho), 8–13. http://hdl.handle.net/10174/30316

Camacho, Clara Frayão, ed. 2021. Grupo de Projeto Museus no Futuro: Relatório Final. Direção-Geral do Património Cultural. Lisboa: Direção-Geral do Património Cultural. http://hdl.handle.net/10174/32166

Carvalho, Ana, e Alexandre Matos. 2020. «Digital Competences: Needs and Training in the Portuguese Museum Sector». In The Future of Museum Professionals in the Digital Era – The Success Story of Mu.SA, editado por Achilles Kameas e Panagiota Polymeropoulou, 13–19. Athens: Hellenic Open University Press. http://hdl.handle.net/10174/29380

Carvalho, Ana, e Alexandre Matos. 2020. «The Future of Museums and Digital Transformation Challenges». In The Future of Museum Professionals in the Digital Era – The Success Story of Mu.SA, editado por Achilles Kameas e Panagiota Polymeropoulou, 73–79. Athens: Hellenic Open University Press. http://hdl.handle.net/10174/29386

Carvalho, Ana, e Alexandre Matos. 2019. «Museus e Sociedade Digital: Realidades e Desafios em Portugal». Revista de Museus, n.º 2, 8–23. http://hdl.handle.net/10174/26032

Carvalho, Ana, e Alexandre Matos. 2018. «Museum Professionals in a Digital World: Insights from a Case Study in Portugal». Museum International (Museums in a Digital World), Special Issue: Museums in a Digital World, 70 (277–278): 34–47. http://hdl.handle.net/10174/24003

Projeto InMAP aprovado para financiamento pela Fundação para a Ciência e Tecnologia

O projeto “InMAP – Memórias e Arquivos: Mapear o (In)tangível” (2024-2025) é um dos projectos aprovados para financiamento pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) no âmbito da 1.ª edição do Science4Policy 2023 (S4P-23) – Concurso de Estudos de Ciência para as Políticas Públicas.

Liderado por Ana Carvalho, investigadora Auxiliar (CEEC/FCT) no Centro Interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades (CIDEHUS) da Universidade de Évora, o projeto InMAP irá mapear e analisar a situação dos arquivos de memória criados nas últimas duas décadas por instituições ligadas ao património (e.g., museus, bibliotecas, arquivos, universidades, associações). Para além de uma caracterização destes arquivos de memória recente, é essencial compreender a escala e a extensão das barreiras à preservação e acesso destes acervos. O diagnóstico e a identificação das necessidades e desafios deste panorama irá permitir o desenvolvimento de orientações no campo das políticas públicas.

O projeto terá a duração de um ano e um orçamento de cerca de 50 000 euros. A equipa nuclear é constituída por Ana Carvalho (IR), Paulo Batista (Co-IR), Armando quintas, Dália Guerreiro e Fernando Gameiro. O projeto inclui a participação de duas instituições colaborativas: o Património Cultural, I.P (ex-Direção-Geral do Património Cultural), através de Ana Saraiva, e o Observatório Português das Actividades Culturais, através de José Soares Neves, e ainda de um consultor: Alexandre Matos (Sistemas do Futuro/Universidade do Porto). O projeto InMAP terá também o apoio da Cátedra UNESCO em Património Imaterial e Saber-fazer Tradicional: Ligando Patrimónios da Universidade de Évora.

O Concurso Science4Policy foi lançado em 2023 pela FCT, em colaboração com o Centro de Competências de Planeamento, de Políticas e de Prospetiva da Administração Pública (PlanAPP), com o objetivo estimular a produção de conhecimento científico para apoio à decisão e definição de políticas públicas.

Nesta primeira edição do Concurso Science4Policy foram identificadas 22 linhas temáticas a partir de uma consulta à Rede de Serviços de Planeamento e Prospetiva da Administração Pública (REPLAN). O projeto InMAP concorreu à linha “As Pessoas Primeiro / Património e Memória – Arquivos nacionais”.

Nesta edição do Concurso Science4Policy foram selecionadas para financiamento, a nível nacional, 18 candidaturas (num universo de 71 candidaturas), o que corresponde a uma taxa de aprovação na ordem dos 25%.

Mais informação: https://www.fct.pt/concursos/science4policy-2023-s4p-23-concurso-de-estudos-de-ciencia-para-as-politicas-publicas

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Resumo:

Nas últimas décadas, observa-se um número crescente de novos arquivos criados por instituições de memória (museus, bibliotecas e arquivos) e outras organizações públicas ligadas ao património (universidades, escolas, associações, entre outras). Identificam-se pelo menos dois aspetos (interligados) que terão contribuído para este estado da arte: 1) o desenvolvimento da história oral reforçou a necessidade de documentar as memórias de pessoas, comunidades e participantes em eventos passados; 2) o impacto da Convenção da UNESCO para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial, de 2003, apelou à necessidade de registar e documentar práticas tradicionais, i.e., o Património Cultural Imaterial (PCI) para um futuro sustentável; 3) a necessidade de enriquecer e complementar os arquivos oficiais com as experiências e a participação das comunidades. Muitos destes arquivos de memória recente contêm registos de gravações de som e vídeo, fotografias ou outros documentos relacionados com a preservação da memória e com a documentação do PCI, quer em formato analógico quer em formato digital. 

No entanto, atualmente, em Portugal, não existe um inventário à escala nacional sobre estes arquivos dispersos e informação sistematizada que possa informar sobre a sua caraterização, desenvolvimento e impacto nas comunidades e na sociedade. Para além de uma caraterização destes arquivos de memória recente (dimensão dos recursos; capacidade de infraestruturas e competências; inventário, sistema de informação, gestão e catalogação; acesso aberto), é essencial compreender a escala e a extensão das barreiras à preservação e acesso destes acervos. Em resposta a estes desafios, o projeto InMAP irá mapear e analisar a situação dos arquivos de memória criados nas últimas duas décadas, considerando uma amostra de âmbito nacional e incidindo sobre um conjunto de instituições diversas (e.g., museus, bibliotecas e arquivos, universidades, associações). 

Este estudo combinará um conjunto de instrumentos de análise, que incluem um inquérito, trabalho de campo (entrevistas e grupos focais) e revisão da literatura. A investigação será útil para responder a vários objetivos. Em primeiro lugar, apresentará um diagnóstico da situação atual, identificando necessidades e desafios, e informará o desenvolvimento de planos para mitigar esses problemas. Desta forma, o projeto produzirá um documento final (policy brief) que incluirá também uma proposta de orientações para um quadro legislativo que tenha em conta as especificidades destes arquivos. Em segundo lugar, os resultados darão forma à conceção de um conjunto de ferramentas de preservação digital para ajudar a orientar os profissionais no desenvolvimento da sua estratégia, especialmente tendo em conta as instituições de memória de menor escala em áreas mais remotas. Por último, a investigação ajudará a sensibilizar para a valorização e importância destes recursos e contribuirá para a salvaguarda deste património. 

Abstract:

In the last decades, there is a growing number of new archives created by memory institutions (museums, libraries and archives) and other public heritage organisations (universities, schools, community associations, among others). At least two intertwined aspects have contributed to this state of the art: 1) oral history development has reinforced the need to document the memories of people, communities, and participants in past events; 2) the impact of the 2003 UNESCO Convention for the Safeguarding of the Intangible Cultural Heritage, urged for the need to record traditional silks and practices, e.g., Intangible Cultural Heritage (ICH) for a sustainable future; 3) the need to enrich and complement official archives with community experiences and participation. Many of these recent memory archives contain collections of sound and video recordings, photographs or other documentary materials related to memory preservation and to ICH documentation, either in analogue or in digital form. 

However, at present, in Portugal, there is no national-wide inventory of these scattered archives and systematized information that can inform about their characterization, development and impact in communities and society. Besides a characterisation of these recent memory archives (resources dimension; infrastructure & skills capacity; inventory, management system & cataloging; open access), it is essential to understand the scale and extent of barriers to preservation and access. In response to these challenges, the project will map, collect and analyze information about the situation of memory archives that have been created in the last two decades, considering a national-wide sample and focusing on a set of diverse institutions (e.g., museums, libraries and archives, universities, community associations). 

The study will combine a set of analysis tools, which include a survey, fieldwork (in-depth interviews and focus groups) and literature review. The research will be valuable for several purposes. First, it will present a diagnosis of the current situation, identifying needs and challenges, and inform the development of plans to mitigate those problems. In this way, the project will deliver a final policy brief that will also include a proposal of guidelines for a legislative framework considering these archives specificities. Second, the findings will shape the design of a digital preservation toolkit to help guide professionals in developing their strategy, especially considering smaller memory institutions in more remote areas. Finally, the research will help to raise awareness of the value of these unique resources and encourage safeguarding this heritage. 

Os museus e o digital: o lugar das políticas públicas

na imagem vê-se uma mesa digital

*O texto que se segue foi publicado na revista Inverso (n.º 3, Jun. pp. 8-13): https://www.uevora.pt/ue-media/Revista-Inverso/Inverso-n1-3

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O “digital”, esse termo abstracto e poroso que usamos aqui para nos referirmos a tudo o que é mediado por tecnologias digitais, plataformas e serviços (ex. apps, websites, smartphones, sistemas e software, etc.), tornou-se ferramenta ainda mais omnipresente nas nossas vidas. Antes da crise pandémica já comungávamos dessas ferramentas, que em muitos aspectos nos facilitavam a vida. O que mudou foi a forma, diria até invasiva, com que nos transportou de forma dominante e avassaladora para o universo digital, à força das circunstâncias. Se antes o digital era algo que se acenava como possibilidade de ampliar ou complementar as formas tradicionais de fazer, com incursões pontuais, por vezes mais distantes, tidas como acessórias ou secundárias, hoje tem o palco principal. Mas com isso, e falo pela minha própria experiência, como investigadora, como museóloga, como professora, como mãe, veio um cansaço extremo e a saturação, pois tudo o que é excessivo desequilibra.

Ainda ecoam em mim as palavras do Professor José Alberto Machado, quando a propósito da comemoração do Dia das Ciências Sociais na Universidade de Évora, a 12 de Março, lembrou “o digital não tem limites, mas também é uma limitação”. E é nesse balanço, entre o que é essencial e o que não é essencial, entre perdas e ganhos, que deve recair a nossa atenção, esse exercício crítico que nos deve acompanhar em permanência sobre o lugar que queremos dar às tecnologias, evitando cair em apressadas simplificações ou olhares estritamente benevolentes ou puramente antagonistas.

O meu olhar para as tecnologias digitais veio primeiro da experiência informal, como ferramenta de comunicação. Há quase 15 anos, tendo acabado de fazer o mestrado em museologia, percebia a importância da comunicação e a ausência de divulgação no mundo dos museus. Resolvi criar um blogue – “o mundo dos museus”. Ainda hoje o mantenho pelo interesse que continua a suscitar e pelas redes que potencia. Depois como investigadora, percebi que não bastava pesquisar, escrever e produzir conhecimento, era preciso disseminar para além dos canais tradicionais, de forma múltipla e informal, incluindo a redes sociais. Os impactos destas formas de comunicação são quase sempre imprevisíveis, mas tangíveis, de uma forma ou de outra.

Mas foi a partir de 2016, num contexto mais estruturado de investigação que me aproximei da reflexão em torno do universo das tecnologias e da sua aplicação nos museus no sentido de analisar a forma como o desenvolvimento de tecnologias influencia os museus e as suas formas de trabalho. Esta linha de investigação foi desenvolvida com o convite para participar no projecto internacional Mu.SA – Museum Sector Alliance, entre 2016 e 2020. A investigação teve como ponto de partida reflectir sobre o papel dos museus na sociedade digital, considerando as necessidades e os desafios da transformação digital. A investigação desenvolveu-se a partir de uma análise comparativa em três países do Sul da Europa: Portugal, Grécia e Itália, e no contexto de um consórcio internacional liderado pela Hellenic Open University (Grécia), com financiamento europeu (Erasmus +, Sector Skills Alliance). Como sempre, os resultados da investigação apontaram para a necessidade de ultrapassar desafios, que são, como não poderiam deixar de ser, múltiplos, e, com frequência, transversais e partilhados. O reporte para o caso português apontou respostas limitadas e pouco estruturadas dos museus relativamente à comunicação digital, que resultam, por sua vez, de um quadro de escassez – de recursos humanos e financeiros, infraestruturas tecnológicas e técnicas, em grande medida, obsoletas e insuficientes – da ausência de visão e de uma política museológica consistente.

Entre 2020 e 2021, as medidas para combater a crise pandémica levaram ao encerramento de muitos museus, um pouco por todo o mundo. Desde logo, os relatórios produzidos pela UNESCO (Museums Around the World in the Face of Covid-19, Maio 2020) e pela NEMO – Network of European Museums Organisations (Survey on the Impact of the COVID-19 Situation on Museums in Europe: Final Report, Maio 2020), entre outros, sublinhavam, de modo global, a forma reactiva como os museus responderam com actividades no espaço digital, com consequente incremento das visitas online. No entanto, a crise pôs a descoberto muitas das desigualdades entre os museus, acentuando a percepção mais imediata das suas fragilidades e carências. Como sugerem os já citados relatórios da UNESCO e da NEMO, os museus menos equipados (recursos humanos e financeiros, infraestruturas, competências) tiveram menor capacidade de reação e de actuação. Quanto à realidade portuguesa, e no cenário pré-crise, a investigação desenvolvida no âmbito do projecto Mu.SA já evidenciava que a relação dos museus com o digital era, de um modo geral, insuficiente, exigindo conhecimentos e recursos que não existem ou são claramente limitados. A crise veio acentuar estes constrangimentos de partida.

Em 2019 fui chamada a participar no Grupo de Projecto “Museus no Futuro”, uma iniciativa do Ministério da Cultura (Resolução do Conselho de Ministros n.º 35/2019, de 18 de fevereiro). Ensaiando uma iniciativa inédita, o Grupo foi criado para propor recomendações que pudessem ser vertidas em medidas de política pública no horizonte temporal 2030, considerando a sustentabilidade, a acessibilidade, a inovação e a relevância dos museus e do património na sociedade. De cerca de um ano e meio de trabalho resultou o relatório “Museus no Futuro”, coordenado por Clara Frayão Camacho (Direção-Geral do Património Cultural), que foi entregue à Ministra da Cultura em Novembro de 2020. Amplamente participado pela comunidade de profissionais de museus, este Relatório debruçou-se sobre o universo de 37 museus, palácios e monumentos sob a alçada da Direção-Geral do Património Cultural e das Direções-Regionais de Cultura. Com base num diagnóstico deste panorama, propõem-se 50 recomendações em torno de cinco eixos temáticos: gestão, redes e parcerias, gestão de colecções, públicos e mediação, incluindo a transformação digital.

As recomendações para a transformação digital assentam sobretudo na necessidade de ampliar a capacidade de adaptação dos museus a condições mais atualizadas e exigentes, em que também se reconhecem maiores expectativas por parte dos públicos. As recomendações concentram-se em torno de quatro pilares interdependentes: o fortalecimento das infraestruturas e da capacidade digital; a aposta na digitalização das colecções e na promoção do acesso; o reforço de parcerias com outras entidades (como bibliotecas e empresas do sector das tecnologias de informação), incluindo centros de investigação no sentido da desejável transferência do conhecimento com aplicabilidade para os museus e para o património; e, por fim, mas não menos importante, a capacitação e a estratégia em sintonia com uma necessária mudança de mentalidades e de lideranças capazes de dar resposta a novos reptos.

Se a possibilidade de incrementar meios, recursos e parcerias para robustecer os serviços dos museus se consideram elementos fundamentais para alavancar a transformação digital, não menos essencial é a promoção do recrutamento e da capacitação de profissionais com novos conhecimentos, especialização e competências. A capacitação das lideranças e das equipas de museus é, nesse sentido, uma via privilegiada e fértil para instigar a mudança, no sentido de uma atitude mais informada, mais crítica e mais criativa, que possa, assim, estimular um pensamento mais estratégico sobre o lugar do digital nos museus e de que forma pode potenciar a missão de cada museu. É essa capacidade e reflexividade crítica que deve ser incentivada e alimentada. As recomendações a que aludimos não sugerem uma meta única, formatos ou fórmulas prescritivas aplicadas indiferenciadamente, mas, identificam pilares de mudança vertidos em medidas concretas que possam garantir que cada museu possa capacitar-se para desenvolver a sua estratégia e comprometer-se com a sua missão de serviço público. Não se trata de perseguir a introdução de tecnologias como um fim em sim mesmo, mas perspectivar as tecnologias, na miríade de formatos e linguagens que vão aparecendo, como possibilidades para que os museus possam expandir a sua relação e comunicação com os públicos, cativar e criar mais espaços de envolvimento e de participação. Isso implica um necessário e contínuo questionamento da inevitabilidade das tecnologias, do que se faz, porque se faz e com que objectivos, requer análise crítica e avaliação do que é essencial e o que não é essencial.

É urgente dar sentido às recomendações do Relatório “Museus no Futuro” por via de uma política pública que seja capaz de prover os meios e as condições para um desenvolvimento integrado e sustentado do tecido museológico do país. Face às conhecidas múltiplas carências infraestruturais (e confrangedoras) dos museus, é preciso garantir a correção das assimetrias, que só as políticas públicas podem ultrapassar. Mais do que a inevitabilidade da transformação digital, é preciso assertividade e exercício crítico, num tempo de finitos recursos. E se o Plano de Recuperação e Resiliência coloca uma das tónicas na “transição digital”, isso não nos deixa descansados, é preciso garantir que também os museus sejam contemplados na distribuição de recursos. Mas para além disso, que a aposta no digital possa ser de facto suporte para o que é essencial, com base num pensamento estratégico e estruturado, que permita, por sua vez, estimular o desenvolvimento dos museus.

Texto escrito de acordo com a antiga ortografia.

 

*Ana Carvalho é Investigadora de pós-doutoramento no Centro Interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades (CIDEHUS) e Professora de Museologia na Universidade de Évora. Doutoramento em História e Filosofia da Ciência, especialização Museologia e mestrado em Museologia. Membro do Grupo de Projecto Museus no Futuro (2019-2020), uma iniciativa do Ministério da Cultura com o objectivo de propor recomendações de política pública para o sector dos museus e do património. Investigadora no projecto internacional Mu.SA – Museum Sector Alliance (2016-2020). É uma das fundadoras da revista MIDAS – Museus e Estudos Interdisciplinares. Coordenou o Boletim do ICOM Portugal (2014-2018). Autora do blogue “No Mundo dos Museus”. A sua investigação tem-se centrado em temas do património, da história da museologia e da museologia contemporânea.

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Mais leituras:

Camacho, Clara Frayão, ed. 2021. Grupo de Projeto Museus no Futuro: Relatório Final. Direção-Geral do Património Cultural. Lisboa. http://patrimoniocultural.gov.pt/static/data/docs/2021/02/15/RelatorioMuseusnoFuturo.pdf

A Cultura e a Promoção da Democracia: Para uma Cidadania Cultural Europeia: a Carta do Porto Santo em destaque

O Plano Nacional das Artes (https://www.pna.gov.pt) tomou a iniciativa de elaborar a Carta do Porto Santo – “A Cultura e a Promoção da Democracia: Para uma Cidadania Cultural Europeia” (25-04-2021), em conjunto com vários parceiros. O documento está disponível em pdf aqui: https://bit.ly/3ceIR1o

Trata-se de um documento inspirador com relevância para o mundo dos museus. Transcrevemos aqui a Carta do Porto Santo.

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Preâmbulo

a)  A Conferência do Porto Santo, no âmbito da Presidência Portuguesa do Conselho da União Europeia, propõe esta Carta do Porto Santo como um mapa orientador de princípios e de recomendações para aplicar e desenvolver um paradigma de democracia cultural
na Europa.

b)  A Carta do Porto Santo dirige-se a decisores políticos europeus, de todos os níveis (autoridades europeias, governos nacionais, regionais e locais); às organizações e instituições culturais e educativas; e aos cidadãos europeus, para que se responsabilizem pelo horizonte cultural comum.

c)  Na sequência do Plano de Ação para a Democracia Europeia (Comissão Europeia, 2020), pretende-se explicitar e promover o papel do sector cultural no aprofundamento da democracia.

d)  Em contexto pandémico, a Presidência Portuguesa do Conselho da União Europeia assumiu no seu programa «promover a recuperação, a coesão e os valores europeus» (Europa Resiliente); «valorizar e reforçar o modelo social europeu» (Europa Social) e «promover uma Europa aberta ao mundo» (Europa Global). O sector cultural não pode ficar afastado destes objetivos comuns, é parte determinante dessas tarefas inacabadas, porque a cultura tem um poder transformador.

e)  A pandemia Covid19 evidenciou a importância da cultura para a qualidade das nossas vidas, mas contribuiu também para erguer barreiras a muitos níveis, entre os quais no acesso à cultura. O reforço da democracia na Europa implicará deitar abaixo esses muros e remover os obstáculos à participação, tornando-a o mais ampla possível. As desigualdades que a pandemia expôs, as fragilidades do sector cultural e a propensão ao surgimento de tensões sociais, exigem que as manifestações culturais sejam valorizadas como parte do desenvolvimento sustentável do projeto europeu.

f)  Esta Carta é devedora de muitos autores e de documentos estratégicos anteriores sobre direitos culturais e o impacto social da cultura[1]: a começar pelo Artigo 27o da Declaração dos Direitos Humanos (ONU, 1948): «todos têm o direito a livremente participar na vida cultural da comunidade (…)».

g)  Esta Carta é o resultado de um processo de escuta, de discussão e de colaboração, com a participação de representantes dos estados-membros da União Europeia e das Instituições, Associações e Redes europeias do sector cultural e educativo[2]. O conteúdo (democracia cultural) e a forma (processo de pensamento colaborativo) constituem, assim, uma unidade.

h)  Apresentada no Porto Santo[3], região ultra-periférica europeia assumida como centro de irradiação de propostas de política cultural e educativa, propomos que esta Carta seja um farol para orientar as políticas, os discursos e as práticas culturais e educativas, contribuindo para uma Europa mais plural, inclusiva e segura.

  1. A saúde da democracia e o papel da cultura

A democracia e os perigos que a ameaçam são, novamente, questões centrais nas nossas sociedades. É fundamental avaliar criticamente os modelos de democracia que implementamos e pensar em modos de intensificar e ampliar a participação dos cidadãos, para legitimar as instituições e os processos de decisão. A democracia deve ser continuamente avaliada a partir das suas consequências. É um processo, um movimento, mais do que uma condição estática e permanente.

A democracia é uma metodologia social dinâmica, uma forma de funcionamento e de partilha do poder. Nela valorizam-se os interesses e as necessidades de todos os cidadãos; dá-se-lhes voz e possibilidade de escolha; respeita-se a diversidade e valoriza-se a dissensão. O estilo próprio da democracia é o confiar na inteligência cooperativa da comunidade.

É fundamental que a democracia não seja vista como uma dimensão especializada do sector político, tem de ser uma preocupação transversal aos vários sectores sociais. Podemos viver num estado democrático e, no entanto, as diferentes dimensões e instituições da vida comunitária permanecerem autoritárias. Neste sentido, é necessário promover uma concepção de cidadania cultural baseada no pluralismo: no reconhecimento da multiplicidade de vozes e na valorização das diferenças. Interpretações redutoras e unívocas da identidade cultural são perigosas, uma negação da visão democrática, inclusiva e aberta das culturas.

Como consolidar a democracia na esfera cultural? Que relações de poder se estabelecem nas instituições e nas práticas culturais e educativas? Como pode a participação cultural ajudar a emancipar os cidadãos? As instituições culturais, os seus processos e modos de organização, o que valorizam e propõem, tem consequências na saúde democrática de uma sociedade.

  1. Democratização da cultura e Democracia cultural

As palavras importam, têm uma história e incarnam ideologias, mesmo de forma inconsciente, e por isso é fundamental analisar o discurso que usamos, porque novos contextos exigem novas perguntas e outras respostas. E quando novas situações não encontram a resposta adequada no paradigma dominante (a matriz de pressupostos partilhada por uma determinada comunidade, que estrutura e orienta o pensamento e a ação), é preciso reformulá-lo.

Cultura

A definição da palavra cultura, nesta Carta, não quer ser demasiado ampla (tudo é cultura), nem restrita em demasia (apenas a cultura erudita, das belas-artes e do grande património). Entendemos cultura no plural, como um conjunto de sistemas simbólicos nos quais estamos inseridos e que nos ajudam a dar um sentido à experiência (pessoal e coletiva) e uma forma humana ao mundo, determinando o horizonte de possibilidades em que nos movemos. As culturas materializam-se nas manifestações simbólicas, artísticas e patrimoniais das comunidades, envolvendo a tradição herdada e a criação contemporânea. As culturas são um processo criativo coletivo contínuo, em que estão envolvidos todos os grupos de uma determinada sociedade. As culturas são uma tarefa infinita: que recebemos em herança e que continuamos a trabalhar (conservando e inovando) para transmitirmos às gerações seguintes (que continuarão esse processo).

Ao pensar a cultura, as perguntas sobre quem a faz, como é feita e para quem, são essenciais para tomarmos consciência do que reconhecemos e valorizamos como cultural. O que é apoiado pelas políticas públicas, o que programamos e divulgamos, depende, em larga medida, desse entendimento.

Democratização da cultura

O paradigma «Democratização da cultura», estruturado no final dos anos 1950[4], propõe tornar acessíveis, ao maior número de pessoas, as obras-primas da humanidade e, em primeiro lugar, as do país em causa; aproximar o público do património cultural e favorecer a criação de obras de arte para enriquecer esse património. A «Democratização da cultura» pressupõe, assim, uma visão bem- intencionada, mas descendente (top-down) — e pensada no singular (a Cultura). Esta visão hierarquiza a cultura em erudita, de massas e popular, sendo a erudita aquela que merece ser «democratizada», difundida «para todos», porque é a que tem «qualidade». Este paradigma, no entanto, não problematiza a arbitrariedade da noção de cultura (associada às belas-artes e ao património histórico), e a sua aparente homogeneidade, nem as noções de qualidade e excelência, ignorando que os critérios são convenções epocais, grupais, subjetivas e variáveis. Neste paradigma a hierarquização cultural desvaloriza, não só as práticas culturais, mas os próprios cidadãos — olhados como consumidores, tratados como desiguais e excluídos da função de agentes de cultura. É fundamental compreender, no desenvolvimento de políticas culturais, que hierarquizar valores culturais implica, sempre, formas de poder e de autoridade — de que é preciso estar muito consciente.

A difusão cultural descendente não teve os resultados esperados. Os obstáculos não são apenas financeiros ou físicos (ainda que estes sejam determinantes, permanecem), nem de divulgação ou de conhecimento. Os obstáculos são simbólicos e de sentido de pertença. Nem mesmo a escolaridade foi condição suficiente para ultrapassar essa barreira simbólica. Cristalizaram-se as hierarquias sociais no acesso aos bens culturais. É preciso pensar de outro modo, desenhar outro paradigma.

Neste paradigma a hierarquização cultural desvaloriza, não só as práticas culturais, mas os próprios cidadãos — olhados como consumidores, tratados como desiguais e excluídos da função de agentes de cultura. É fundamental compreender, no desenvolvimento de políticas culturais, que hierarquizar valores culturais implica, sempre, formas de poder e de autoridade — de que é preciso estar muito consciente.

Democracia cultural

«Democracia cultural» é um modelo cultural que, tendo raízes nos anos 1960, ganha preponderância em alguns projetos na década de 1980, e que advoga a criação de condições para uma participação mais ativa e o reconhecimento das práticas culturais dos diferentes grupos sociais. A «Democracia cultural» implica um novo modo de relações entre as instituições e as comunidades: a cultura como um espaço aberto onde cada cidadão pode participar e ser responsável. Este paradigma implica uma mudança de atitude e um deslocamento da relação de consumo para a do comprometimento. Recusa a menorização dos cidadãos e dos públicos não conotados com as elites, valorizando o que cada um sabe, as suas tradições, a sua voz. Não «leva cultura» aos territórios, porque em todos os territórios já existe cultura: valoriza a cultura local e complementa-a com outras expressões culturais, abrindo a experiência local ao universal, e estimulando esse diálogo.

A vontade de preservação da diversidade cultural e de proteção dos direitos culturais afirma-se como uma alternativa à globalização económica e cultural. Implica a valorização de culturas e públicos distintos e reconhece o direito de emancipação e empoderamento dos cidadãos como sujeitos culturais ativos: com a possibilidade de participarem e decidirem a vida cultural das comunidades. Para isso, é preciso dar acesso aos meios de produção cultural e democratizar os processos de decisão. Deve garantir-se a pluralidade na produção cultural e na sua difusão, não apenas no acesso. Assim, a democracia cultural favorece a pluralização, a territorialização das decisões e a partilha do poder.

  1. Diferença e complementaridade dos dois modelos culturais: para uma cidadania cultural plena

Os dois paradigmas dão origem a distintas políticas culturais e a diferentes modos de funcionamento das instituições. Promovem consciências e representações sociais diferenciadas do que é e de quem pode produzir cultura. No entanto, podemos articular os dois paradigmas, em complementaridade. O conhecimento e o acesso às grandes obras da humanidade, do passado ou contemporâneas, não se deve opor à participação no ato criativo ou à valorização de diferentes tradições e de novas narrativas. Mas é fundamental refletir no modo como um modelo tem como pressuposto uma desigualdade que se quer reduzir, um deficit; e o outro uma igualdade que se reconhece e confirma. Esta igualdade exige direitos e deveres, meios e recursos, para ser concretizada. «Cidadania cultural» é o exercício desses direitos e deveres culturais.

O ponto de partida da Democracia cultural é a verificação da igualdade entre os detentores do poder institucional e os cidadãos. Pressupor, à partida, que essa igualdade só estará no fim do processo, é manter sempre a pretensa desigualdade original. É fundamental tomar consciência do poder que se exerce quando se criam instituições, se faz programação, se distribui financiamento, se organizam exposições e o acesso a elas. É prioritário garantir a acessibilidade integrada nas instituições culturais, quer na relação com as comunidades, quer na sua organização interna. É preciso negar todas as utilizações da cultura como sinal de distinção social, recusar hierarquizações estigmatizantes, que funcionam como violência simbólica de um grupo social com poder sobre outros, que se sentem deslocados, excluídos e não representados.

A Democracia cultural implica uma atenção multidimensional à formação de públicos,
e o abandono da noção de público no singular. Um passo fundamental para que as instituições possam democratizar-se é conhecer os públicos — os que existem e os que poderão existir. Caso contrário, formam-se ideias e imagens ilusórias que existem apenas enquanto representações dos responsáveis institucionais. As organizações culturais não representarão as comunidades que devem servir se não as conhecerem, do mesmo modo que não poderão convocá-las para a participação, sem saber e valorizar o que já são, aquilo que sabem e vivem. Temos de transformar as «ins-tituições» em «ex-tituições», lugares abertos e de relação, em saída de si; e as audiências em protagonistas com voz, e não meros figurantes.

No entanto, na defesa da Democracia cultural não se pode cair no erro de recusar a tradição artística e as manifestações patrimoniais da humanidade, nem num relativismo em que tudo se amálgama, sem critérios. É um exercício complexo, em que o populismo fácil pode conduzir a uma hipervalorização das identidades culturais locais ou específicas, confirmando apenas as expectativas e sem abertura de novos horizontes. A cultura é um modo de sair de si e colocar-se no lugar do outro.

O voluntarismo é também um perigo: julgar que não é preciso preparação, nem mediação, nem conhecimento dos códigos das práticas culturais e dos públicos, assumindo que todas as experiências culturais, populares e eruditas, são auto-explicativas.

Também não podemos confundir Democracia cultural com a participação física. A relação com as manifestações culturais não precisa de ser «participativa», do ponto de vista físico, para ser significativa. Ser espectador ou fruidor (e aprender a sê-lo) é um dos aspetos determinantes dessa participação.

Outra questão a ter em atenção, é a possibilidade de conflito entre os conceitos «excelência» e «qualidade» nas visões da Democratização da cultura e da Democracia cultural. Em primeiro lugar, é preciso compreender a ambiguidade e polissemia desses conceitos. Depois, que a excelência ou qualidade não está apenas no produto, mas pode ser encontrada no processo, na relação estabelecida entre obra e público, no envolvimento afetivo e intelectual que permite, na criação de competências, na alteração de comportamentos. Podemos manter o objetivo da excelência, mas é preciso ser inclusivo e aberto na escolha das equipas que definem essa excelência. O sistema de qualidade não pode ser uma forma de reforço e reprodução de desigualdade, de distinção social e de gosto elitista. A compreensão de que a qualidade é uma construção cultural deve ser estimulada e debatida — e uma forma de participação franca numa democracia é abrir esse debate.

Se a Democracia cultural implica a participação de cada um em prol da cultura de todos, não pode deixar de ser, também, a valorização do indivíduo, da sua capacidade pessoal de intervenção no mundo, do seu potencial criativo e deliberativo individual, da sua liberdade de expressão. As políticas culturais deverão atender a esta liberdade criativa.

  1. Cidadania cultural e territórios digitais

Se a Cidadania cultural é o exercício dos direitos e deveres culturais, os territórios digitais devem ser compreendidos como mais um meio, e um meio com possibilidades próprias, para ampliar essa participação e produção cultural. Como qualquer outro meio, a sua utilização dependerá do paradigma que seguirmos e dos objetivos que desejarmos alcançar. Poderá ser, meramente, um meio de divulgação cultural, dirigida a consumidores, ou, indo mais longe, ser um espaço aberto de interação, apropriação e promoção da democracia cultural, até do ponto de vista da criação: há património a ser criado neste território.

O digital é, também, uma ferramenta que facilita processos de colaboração dentro das instituições e entre estas e os cidadãos, compreendidos como colaboradores. As ferramentas digitais são úteis para escutar as pessoas e as comunidades, e até para as envolver na definição das políticas culturais.

No entanto, o território digital, como a atual pandemia veio demonstrar, é também espaço de exclusão. Não podemos deixar de pensar em soluções para mitigar essas barreiras que este território impõe. Capacitar para a cidadania cultural implica também desenvolver, a montante, políticas de acesso, inclusão e literacia digital. Os fenómenos de desinformação, de ataque a expressões culturais específicas ou minoritárias, bem como de privatização do espaço digital, devem ser acautelados.

  1. Cidadania cultural e educação

Para promover a cidadania cultural, temos de colocar a cultura, entendida deste modo plural e participado, no coração das políticas educativas, e a educação no centro das políticas culturais. Para que cada um possa participar na cultura de todos, de forma emancipada, tem de ter condições para que isso aconteça.

É decisivo reconhecer as instituições culturais como território educativo — do mesmo modo, que as escolas são polos culturais. Com este propósito, as instituições culturais não podem deixar de reforçar o seu papel educativo, assumido na sua missão e espelhado na sua estrutura, nos seus recursos e nas suas práticas. No mesmo sentido, alinhada com o modelo de democracia cultural, a escola deve valorizar as especificidades individuais, culturais, territoriais, e possibilitar que todos os alunos tenham acesso a variadas experiências artísticas e manifestações culturais ao longo da vida; que possam ver reconhecida a sua identidade cultural e valorizadas as expressões culturais da sua comunidade; que tenham acesso aos patrimónios e consciência da sua necessária salvaguarda; que ao longo do seu trajeto desenvolvam a criatividade e a imaginação, a sensibilidade estética e o pensamento crítico; que conheçam e efetivem os seus direitos e deveres culturais; e que descubram a sua própria forma de participação ativa na cultura de todos.

A preocupação com o futuro da democracia, ou seja, com o futuro da Europa, tem de nos conduzir a dar voz e a escutar as gerações mais novas, torná-las participantes no governo de todos — a começar pela sala de aula e a escola, mas também representados nos conselhos consultivos das instituições culturais — e a integrar como iguais e sem desconfiança as linguagens artísticas destas gerações.

A grande arma da democracia é fazer emergir questões e debatê-las. Abrir a mesa da discussão, sem excluir, sem medo do dissenso ou do contraditório. «Cidadãos empenhados, informados e capacitados são a melhor garantia de resiliência para as nossas democracias», como afirma o Plano de ação para a democracia europeia. A educação, seja formal, informal ou não-formal, é o laboratório da democracia.

Recomendações

Para podermos exercer o direito à participação na cultura, são necessárias condições imateriais e materiais para assegurar que uma liberdade substantiva exista, para que cada cidadão e cada comunidade possam escolher participar e responsabilizar-se pelo horizonte cultural de todos. Para desenvolver esta cidadania cultural promotora da democracia, apresentamos propostas interligadas e dirigidas aos diferentes agentes do ecossistema cultural, nas suas diferentes escalas, e pensadas de forma sistémica.

Aos decisores políticos:

  1. Propor que os princípios e valores da Democracia cultural sejam reforçados nos objetivos e medidas de política pública cultural e educativa dos Estados-Membros da União Europeia.
  2. Aprofundar o desenvolvimento de planos de ação intersectoriais de educação e cultura, respondendo aos desafios e ao potencial criativo de uma Europa mais diversa, inclusiva e democrática.
  3. Reforçar as condições necessárias e criar planos de ação de longo prazo para que os cidadãos possam exercer os seus direitos e deveres culturais: valorizando a diversidade cultural; capacitando-os e dando-lhes voz e poder de decisão; envolvendo-os na criação de políticas culturais e na programação das organizações culturais; promovendo o acesso e a possibilidade de participação na produção e divulgação cultural; responsabilizando-os pelo horizonte cultural comum. As ferramentas digitais oferecem mais uma oportunidade para a concretização destes objetivos.
  4. Desenhar um Índice de Democracia Cultural, para monitorizar programas de promoção da democracia cultural e a governação, os processos e as práticas que as instituições promovem para assegurar a diversidade multicultural, a participação social alargada e a capacitação cultural dos cidadãos, valorizando outros critérios que não só os quantitativos — em conformidade com o Quadro de Indicadores sobre a Cultura e a Democracia (Conselho da Europa, 2016).
  5. Financiar as organizações culturais para que possam criar condições concretas que promovam a democracia cultural.
  6. Assegurar que o espaço digital é um espaço público para o exercício da democracia cultural.
  7. Promover a participação de grupos sub-representados, com base em investimento que seja: i) decidido por júris representativos da diversidade que se quer apoiar ii) pautado por critérios de qualidade baseados em parâmetros de acessibilidade, inclusão, diversidade e igualdade, iii) facilitador de processos de longo prazo e que permita o envolvimento direto das comunidades na sua concretização.
  8. Mapear as instituições culturais públicas, os organismos do terceiro sector e os agentes culturais — incluindo os coletivos informais — que trabalham para a promoção de uma cultura participativa. Este mapeamento visa: i) dar a conhecer o que já está implementado em cada território; ii) construir uma rede, partilhar boas práticas e aprender mutuamente; iii) identificar o que pode ser melhorado e as formas mais adequadas para alterá-lo.
  9. Multiplicar espaços de criação (makerspaces), salas de ensaio, ateliês e estúdios que promovam a experimentação, a produção e a criação, de modo autónomo e colaborativo.
  10. Favorecer a emergência de projetos emancipatórios a partir da realidade dos contextos, capacitando os seus agentes.
  11. Incentivar as atividades culturais amadoras e promovidas por organizações informais e não-profissionais.
  12. Rever os currículos do ensino obrigatório, para garantir que promovem perspetivas culturais diversificadas.
  13. Fomentar a introdução no currículo do ensino obrigatório e nas instituições de ensino superior, de forma transdisciplinar e integrada, as culturas, as artes e os patrimónios enquanto áreas fundamentais para o exercício de uma cidadania cultural, esclarecida e participada.
  14. Criar programas de formação sobre democracia cultural e processos colaborativos nas áreas da mediação, criatividade, programação e para a responsabilização na salvaguarda dos patrimónios, no ensino profissional, no ensino superior e na formação contínua.
  15. Introduzir, na formação inicial e contínua de educadores e professores, mais fruição de manifestações multi e transculturais, conteúdos e pedagogias centradas nas artes e nos patrimónios, que os capacitem para trabalhar o currículo de forma transdisciplinar e criativa, e promovam a compreensão e interiorização do paradigma da democracia cultural. Uma formação que lhes dê condições para promover nos alunos a aquisição de competências para a cidadania cultural, respeitando a pluralidade de expressões e valorizando as suas identidades culturais.
  16. Promover competências digitais para ultrapassar a exclusão digital e assegurar neste meio o acesso a conteúdos de cultura, património e artes, oferecendo às pessoas a oportunidade de participar, criar e fruir experiências culturais online, em especial as que habitam em áreas remotas.

Às organizações culturais e educativas:

  1. Reconhecer que as instituições culturais são territórios educativos e que as instituições educativas são polos culturais, promovendo a articulação de ações e projetos entre elas de forma estruturante e continuada.
  2. Repensar as organizações culturais e educativas, no sentido de uma governação democrática: promover processos colaborativos dentro da organização; envolver os seus membros nas deliberações e implementar uma política interna de avaliação contínua, que permita aferir o progresso dos processos de mudança e de partilha de poder (aplicar o Índice de Democracia cultural).
  3. Criar conselhos consultivos nas instituições culturais, convidando os membros das comunidades, em particular os mais jovens, para deles fazerem parte. O seu envolvimento nas questões da organização, da programação à mediação, contribuirá para que possam ser agentes culturais ativos e dinamizadores da missão da instituição junto dos seus pares. Os conselhos consultivos com membros das comunidades promovem ainda a colaboração com novos grupos e o aprofundamento das relações das instituições com aqueles a quem se dirigem.
  4. Recorrer a profissionais externos de diferentes especialidades, para, em colaboração com os membros da instituição, promover a análise, planeamento e acompanhamento de processos de mudança que tornem a instituição inclusiva, diversa e acessível (a nível social, económico, intelectual, físico, sensorial).
  5. Assegurar que as equipas das instituições culturais espelham a diversidade cultural das comunidades que servem (aplicar o Índice de Democracia cultural).
  6. Promover, com regularidade, estudos de públicos para a recolha de dados que permitam adaptar as estratégias em prol da diversificação dos públicos.
  7. Investir na acessibilidade das instituições e dos programas culturais, considerando as necessidades específicas das pessoas e das comunidades, as suas origens étnicas, religiosas, sociais e económicas, as deficiências físicas, sensoriais e intelectuais e outras necessidades relacionadas com a deslocação e os transportes.
  8. Convidar programadores e artistas representativos da diversidade das comunidades para também assim promover a diversificação dos públicos.
  9. Trazer para a programação e debate as questões sociais prementes, tornando as instituições culturais mais relevantes no debate contemporâneo e em protagonistas do desenvolvimento de consciências sociais e culturais mais atentas democráticas, diversas e igualitárias.
  10. Promover nas instituições a pluralidade de vozes, de práticas, de formas de ver, interpretar e mediar a arte, a cultura e os patrimónios e, desta forma, multiplicar os pontos de vista sobre os bens, as coleções, as programações.
  11. Confiar nos artistas e no seu pensamento divergente, trabalhar e aprender com eles emambientes educativos, culturais e patrimoniais, para desenvolver competências criativas, inovar práticas e perspetivas metodológicas.
  12. Sair da instituição para trabalhar na e com a comunidade, e desse modo chegar a públicos excluídos.
  13. Comunicar os resultados dos projetos e processos de democracia cultural para dinamizar a disseminação de boas práticas, inspirando as pessoas e mobilizando as instituições.
  14. Usar os meios digitais para a promoção da colaboração no seio das instituições, e entre as instituições e os cidadãos, enquanto colaboradores e participantes.

Aos cidadãos:

  1. Reforçar o sentido de pertença à comunidade e a coexistência pacífica entre comunidades distintas, através da responsabilização de todos pelos patrimónios de proximidade, enquanto «bem comum» que importa não só conhecer e preservar mas questionar, refletir, discutir, aprender a reinterpretar e recontextualizar.
  2. Conhecer os direitos e deveres culturais dos cidadãos, na perspetiva da democracia cultural, para os poder exercer, se assim desejar. Essa liberdade implica responsabilizar-se pelo desenvolvimento das suas competências culturais e pugnar pelas condições necessárias para o exercício dos seus direitos e deveres.
  3. Reconhecer o património cultural de proximidade como património próprio e comprometer- se em ser um agente cultural que participa no processo de identificação, de salvaguarda, proteção, comunicação, reinterpretação desses patrimónios.
  4. Colaborar com as instituições culturais, reconhecendo que a sua relevância também depende da participação ativa dos cidadãos.
  5. Envolver-se em movimentos culturais associativos, reconhecendo a sua importância para a comunidade.
  6. Participar nos debates e nas consultas públicas sobre políticas culturais e educativas.
  7. Ser um agente cultural: o que implica expressar-se culturalmente e possibilitar que outros o possam fazer.
  8. Respeitar a diversidade multicultural e os seus agentes e ser intransigente com discursos de ódio, preconceituosos e estigmatizantes.

25 de Abril de 2021

A Conferência do Porto Santo

[1] Entre esses documentos, salientamos, já deste século,a Convenção de Faro (Conselho da Europa, 2005), as Key Competetences for life-long learning (European Comission, 2007),a Declaração de Seoul (UNESCO, 2010), o Indicator Framework on Culture and Democracy (Council of Europe, 2016), a New European Agenda for Culture (2018) e a Carta de Roma (UCLG, 2020).

[2] Na discussão da Carta do Porto Santo participaram representantes dos seguintes países: Áustria, Bélgica – Governo da Comunidade Flamenga, Bélgica – Governo da Comunidade Francófona, Bulgária, Chipre, Croácia, Eslováquia, Eslovénia, Finlândia, Grécia, Hungria, Lituânia, Luxemburgo, Noruega, República Checa, Roménia e Suécia. Participaram também representantes das seguintes organizações: ACEnet, Culture Action Europe, ECCOM – European Centre for Cultural Organisation and Management, EFC – European Foundation Centre,
ENCC – European Network of Cultural Centres, ENO – European Network of Observatories in the Field of Arts and Cultural Education, European Cultural Foundation, Europeana, ICOM Europe, ICOM Portugal, ICOMOS Portugal, InSEA – International Society for Education Through Art, Interarts, ITAC – International Teaching Artists Collaborative, Michael Culture, NEMO – The Network of European Museum Organisations, TEH – Trans Europe Halles e WAAE – World Alliance for Arts Education.

[3] Conferência do Porto Santo. Da democratização à democracia cultural: repensar instituições e práticas. 27 e 28 de Abril de 2021, Porto Santo, Madeira – Portugal.

[4] Este paradigma é, habitualmente, associado à criação do Ministério dos Assuntos Culturais francês, em 1959, e à ação de André Malraux que inspirou e deu origem a uma primeira vaga de políticas culturais em muitos outros países.

 

Futuro dos museus em destaque no Dia Internacional dos Museus

A propósito do Dia Internacional dos Museus (18 Maio), este ano sobre “O Futuro dos Museus: Recuperar e Reimaginar”, a Agenda Cultural de Lisboa dá destaque ao tema na sua edição de Maio (pp. 2-9): https://bit.ly/3eUNM8i

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A 18 de Maio celebra-se o Dia Internacional dos Museus. A edição de 2021 está subordinada ao tema “O Futuro dos Museus: Recuperar e Reimaginar”. Num mundo marcado pela crise pandémica, e após um longo período de afastamento físico do convívio com o espaço dos museus, três especialistas refletem sobre as questões da sustentabilidade, da inovação do futuro e da relevância destas instituições vitais para a vida em sociedade, para o seu desenvolvimento e aperfeiçoamento. Texto de Luís Almeida d’Eça. Fotografias de Humberto Mouco

O DIGITAL CRIOU UMA EXPANSÃO DO TRABALHO DOS MUSEUS
Ana Carvalho, Investigadora da Universidade de Évora (CIDEHUS – Centro Interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades)

A questão dos museus do futuro não é nova, mas tem-nos inquietado particularmente no último ano. O que é possível fazer para que os museus enfrentem melhor os desafios da sociedade? Esses desafios são múltiplos, porém o que me parece mais evidente é o digital pela forma como se tornou, com as portas dos museus fechadas, no recurso a um espaço imprescindível. Na verdade, já antes da pandemia muitos museus trabalhavam o espaço digital, trazendo novos conteúdos e diversificando os seus públicos. Participei no projeto internacional Mu.SA [2016-2019] que abordava a forma como os museus podem responder aos desafios da sociedade digital. A crise pandémica evidenciou que, de uma forma geral, os museus não estão preparados para esse passo. Não conseguem construir uma estratégia que use o digital como forma de beneficiar a sua missão. Sinto, neste momento, que existe um enorme apetite para voltarmos à experiência física, um cansaço do digital. Os museus têm agora a oportunidade de voltar a garantir essas experiências únicas e autênticas no espaço físico. Mas, a ideia do digital não vai desparecer. É como se houvesse uma expansão do trabalho dos museus e é preciso capacitá-los para essa tarefa. Em Portugal, nos museus nacionais, as equipas são pequenas e envelhecidas, com poucos recursos, algumas com poucas competências na área digital e infraestruturas obsoletas. A ideia de “fazer cada vez mais, com menos recursos” não é possível para um trabalho de comunidade e de continuidade nos museus. Existe uma necessidade de maior cooperação com outras entidades para transferência de conhecimentos, um investimento nas tecnologias de informação, a possibilidade de criar projetos piloto, a promoção do acesso através do investimento na digitalização dos acervos. E, mais do que digitalizar, pensar que histórias se podem contar a partir dessas coleções digitais. Isto implica o reconhecimento das fragilidades e políticas públicas assertivas. Os museus portugueses têm subsistido a crises constantes. Esta é mais uma, mas sem precedentes, e que vai trazer um conjunto de repercussões a vários níveis. Os museus, que já se encontravam numa situação frágil, se não virem estas questões encaradas com cuidado, dificilmente poderão desempenhar funções relevantes.

GRANDES RESERVAS PATRIMONIAIS ESPALHADAS REGIONALMENTE
Fernando António Baptista Pereira, Presidente da Faculdade de Belas-Artes de Lisboa

A transição digital nos museus é um dos imperativos desta década. Digitalizar os acervos e colocá-los online, como também a documentação alusiva a esses acervos, ou seja, muitas exposições, catálogos, estudos de mestrado, de doutoramento, etc. Tarefa que necessita de equipas vocacionadas para este fim. O outro lado desta revolução é, para mim, a possibilidade de criar no museu um espaço wi-fi livre para se poderem inserir as aplicações necessárias para se realizar uma visita com o próprio telemóvel, não com os audioguias tradicionais. Os visitantes têm como grandes rivais do museu o seu próprio telemóvel que os atrai para a leitura de coisas exteriores ao museu. Por isso, é importante que o museu entre no telemóvel do visitante através de uma aplicação que lhe presta informações sobre a obra que está a ver, pois mediante o sistema de beacons consegue localizar a presença das pessoas no museu, podendo mesmo propor jogos sobre a obra em causa e, até, sugerir a visita à medida do gosto individual. Se conseguirmos fazer isto, os museus ultrapassam o fim da era das massas que a pandemia ditou. Importa realizar exposições virtuais e eventos online que possam atrair visitantes espalhados ao longo do ano e não concentrados nos meses de verão e, sobretudo, tornar o dispositivo móvel da pessoa como o seu grande aliado na visita ao museu, permitindo guardar as informações e levar o museu para casa, revisitando-o. Estas são as duas questões fundamentais da transição digital. Acrescentaria ainda uma questão estratégica para o desenvolvimento do país: a constituição de grandes reservas patrimoniais espalhadas regionalmente, associadas a laboratórios de conservação e restauro. Não só se empregariam imensos jovens formados nesses domínios, como se encontravam reservas em condições para albergar o património arqueológico, que é imenso, algum do património etnográfico, que está a sair do país para enriquecer coleções lá fora, e parte do património artístico, que os seus detentores não podem conservar devidamente. Mantendo um registo de propriedade, as reservas seriam os locais onde as peças estariam guardadas e disponíveis para exposições temporárias. Os centros de conservação e restauro associados a essas reservas, os sítios onde essas obras iam sendo estudadas, tratadas e salvaguardadas.

TRABALHO EM REDE É A TENDÊNCIA ORGANIZACIONAL DO FUTURO
Clara Frayão Camacho, Museóloga, Coordenadora do Grupo de Projecto Museus no Futuro

Estamos habituados a ligar os museus ao passado e ao presente mas podem também constituir-se como laboratório de estudo e perspetivação do futuro. Foi isso que fizemos no Grupo de Projeto Museus no Futuro formado em meados de 2019, que coordenei ao longo de um ano e meio, e que culminou num relatório com 50 recomendações para os museus, palácios e monumentos do Ministério da Cultura. A análise demográfica do país, o retomar do Turismo, as questões da sustentabilidade, da participação e da transformação digital, levam-me a traçar algumas ideias sobre a perspetiva dos museus do futuro. A primeira é que a pandemia nos alertou para questões sanitárias de bem-estar físico e mental que devemos seguir. Será que essas questões vão ter repercussões a médio prazo na arquitetura dos museus, no equacionar dos espaços de acolhimento, do trabalho dos serviços educativos, do manuseio de equipamento interativo? No que respeita à participação, é cada vez mais notório que fatias significativas da população gostam não só de ver e contemplar as obras de arte, mas também de agir e participar em programas em que sejam ouvidas, seja através de co-curadoria de exposições temporárias, seja na participação de grupos consultivos, ou até em situações de governança participativa que estão a ser experimentadas nalguns museus do mundo. O museu tem que ser uma casa para todos e pensar sobretudo naqueles que não vêm ao museu, se quer ser relevante para a sociedade e não apenas para parte dela. Os cidadãos com literacia digital cada vez mais elevada vão exigir formas mais interativas de atuação dos museus. No futuro perspetiva-se uma complementaridade entre o físico e o online, nunca o desaparecimento da experiência presencial, essencial para fruir e dialogar com os bens culturais. Também nas questões da sustentabilidade os museus devem ter um papel significativo, seja pedagógico, através de exposições, de reflexão e investigação, seja pelo seu próprio exemplo, em termos de arquitetura, de planeamento de espaços ao ar livre, de estacionamento de bicicletas e práticas sustentáveis. Finalmente, o trabalho em rede é definitivamente a grande tendência organizacional do futuro. Quer do ponto de vista formal, com a renovação da própria rede portuguesa de museus, quer no trabalho no terreno com as várias redes de museus já existentes, quer com diretrizes políticas a nível nacional e municipal, com grande envolvimento da sociedade.

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Agenda Cultural de Lisboa, edição de Maio: https://bit.ly/3eUNM8i

Grupo de Projeto Museus no Futuro: Relatório Final (coord. Clara Frayão Camacho): http://patrimoniocultural.gov.pt/static/data/docs/2021/02/15/RelatorioMuseusnoFuturo.pdf

Projecto Mu.SA – Museum Sector Alliance (2016-2020): http://www.project-musa.eu/pt/

 

Competências digitais no sector dos museus

O texto “Digital Competences: Needs and Training in the Portuguese Museum Sector (de Ana Carvalho e Alexandre Matos) foi publicado no livro The Future of Museum Professionals in the Digital Era – The Success Story of Mu.SA (ed. Achilles Kameas e Panagiota Polymeropoulou, 2020). Está disponível na íntegra em: http://www.project-musa.eu/wp-content/uploads/2021/03/Mu.SA-e-book.pdf

Resumo:

Neste capítulo Ana Carvalho (CIDEHUS-Universidade de Évora) e Alexandre Matos (Universidade do Porto) analisam o panorama museológico português em termos de necessidades e da oferta formativa quanto às competências digitais, considerando a formação formal proporcionada pelos cursos de mestrado em museologia e a formação não formal dirigida aos profissionais de museus. Em relação aos planos curriculares dos mestrados em museologia, a pesquisa evidencia uma abordagem pouco estruturada às tecnologias, sendo globalmente introduzidas de forma muito pontual e fragmentada (ex. inventário e gestão de colecções). No que concerne à oferta de formação não formal também se identifica um enfoque residual e pouco estruturado quanto às competências digitais e à introdução das tecnologias. Propõe-se um investimento continuado e assertivo no desenvolvimento profissional, com acento nas competências digitais e no desenvolvimento tecnológico que permita, por sua vez, acompanhar as dinâmicas e as expectativas da sociedade contemporânea.

Abstract:

In this chapter, Ana Carvalho (CIDEHUS-Universidade de Évora) and Alexandre Matos (Universidade do Porto) analyze the Portuguese situation in terms of needs and training offer regarding digital competences, focusing on formal training in museology master’s and non-formal training for museum professionals available. The findings suggest that, in relation to museology curricula, there is little evidence of a systematic approach to digital competences, where technology may make a punctual and fragmented appearance according to the themes covered (e.g. inventory and collections management). In what concerns non-formal training, there is also a limited focus on digital competences and technology topics, insofar as it is explored in an unstructured way. It proposes that professional development will need to address new competences related to digital technologies as part of the changing dynamics and expectations of contemporary society.

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Carvalho, Ana, e Matos, Alexandre. 2020. “Digital Competences: Needs and Training in the Portuguese Museum Sector” In The Future of Museum Professionals in the Digital Era – The Success Story of Mu.SA, ed. Achilles Kameas e Panagiota Polymeropoulou, 13–19. Athens: Hellenic Open University Press. ISBN: 978-618-84272-9-7. http://www.project-musa.eu/wp-content/uploads/2021/03/Mu.SA-e-book.pdf

O futuro dos museus e os desafios da transformação digital

na imagem vê-se uma cena de museu, três jovens a olhar para um telemóvel e no fundo uma imagem a preto e branco de um homem de olhos fechados

O texto “The Future of Museums and Digital Transformation Challenges”/O Futuro dos Museus e os Desafios da Transformação Digital (de Ana Carvalho e Alexandre Matos) foi publicado no livro The Future of Museum Professionals in the Digital Era – The Success Story of Mu.SA (ed. Achilles Kameas e Panagiota Polymeropoulou, 2020). Está disponível na íntegra em: http://www.project-musa.eu/wp-content/uploads/2021/03/Mu.SA-e-book.pdf

Resumo:

Neste capítulo, Ana Carvalho (CIDEHUS-Universidade de Évora) e Alexandre Matos (Universidade do Porto) defendem que o planeamento dos museus para a transformação digital, a par com lideranças sólidas são aspectos cruciais para o estabelecimento de objectivos estratégicos. Neste contexto, considera-se a necessidade de reflectir sobre uma mudança de mentalidades, com impacto na forma como os museus se organizam, a introdução de novos conhecimentos e competências, assim como atender ao esforço e aos recursos necessários (qualificação de pessoal, infraestrutura tecnológica e digital, investimento, tempo). Este capítulo  problematiza ainda algumas das questões éticas relacionadas com a transformação digital (ex. protecção de dados e privacidade; acesso aberto às colecções online vs constrangimentos de direitos de autor; acesso aberto vs perda de receitas; museus e controlo da informação; redes sociais).

Abstract:

In this chapter Ana Carvalho (CIDEHUS-Universidade de Évora) and Alexandre Matos (Universidade do Porto) propose that museum planning for digital transformation, along with strong leadership remain crucial to establishing strategic guidelines and objectives. This not only involves establishing a new mind-set, organizational transformation, the inputs of new knowledge and competences, but also assessing the effort and resources (skilled people, IT infrastructure, money and time) required going forward. This chapter was also significant by pinpointing some of the ethical challenges related to digital transformation (e.g. protection of personal data and privacy, open access to museum collections vs copyright constraints, open access vs loss of income, museums and control of data, and social media).

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Carvalho, Ana, e Matos, Alexandre. 2020. “The Future of Museums and Digital Transformation Challenges.” In The Future of Museum Professionals in the Digital Era – The Success Story of Mu.SA, ed. Achilles Kameas e Panagiota Polymeropoulou, 73–79. Athens: Hellenic Open University Press. ISBN: 978-618-84272-9-7. http://www.project-musa.eu/wp-content/uploads/2021/03/Mu.SA-e-book.pdf

Publicado livro sobre o projecto Mu.SA – The Future of Museum Professionals in the Digital Era

O livro “The Future of Museum Professionals in the Digital Era – The Success Story of Mu.SA“, da responsabilidade editorial de Achilles Kameas and Panagiota Polymeropoulou (Hellenic Open University), é um dos resultados finais do projecto Mu.SA – Museum Sector Alliance (2016-2020). Inclui 12 artigos dos parceiros deste consórcio internacional (Portugal, Itália e Grécia), nomeadamente da Hellenic Open University, AKMI S.A, ICOM Hellenic National Committee, ICOM Portugal e Melting Pro Learning.

A investigação desenvolvida no âmbito do projecto Mu.SA (575907-EEP-1-2016-1-EL-EPPKA2-SSA) consistiu em reflectir sobre o papel dos museus na sociedade digital, considerando as necessidades e os desafios da transformação digital no contexto dos museus. A investigação foi desenvolvida a partir de uma análise comparativa em três países do Sul da Europa: Portugal, Grécia e Itália, e no contexto de um consórcio internacional, liderado pela Hellenic Open University (Grécia), com financiamento europeu (Erasmus +, Sector Skills Alliance). 

O projecto Mu.SA teve por objectivo criar ferramentas educativas com vista ao desenvolvimento das competências digitais dos profissionais de museus, através do ensino à distância, nomeadamente por via de um MOOC – um curso online, de acesso livre e sem pré-requisitos de participação. Intitulado “Essential Digital Skills for Museum Professionals”, este curso, realizado em 2019, foi pensado como uma introdução às competências digitais e transferíveis necessárias para melhor capacitar os profissionais face aos desafios da trans- formação digital nos museus. Foi seguido de um curso de especialização (6 meses), com um perfil modular, e compreendendo uma componente teórica e prática. Manteve-se o formato de ensino à distância, através de uma plataforma digital (Moodle), disponibilizando conteúdos online e recursos educativos, incluindo ainda sessões presenciais, actividades de auto-estudo e uma experiência de trabalho efectiva em museu (aproximadamente dez semanas). Alguns destes recursos educativos continuam disponíveis no website do projecto Mu.SA: http://www.project-musa.eu/results/oers/.

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Índice

 ix | Introduction, Achilles Kameas e Panagiota Polymeropoulou

1 | Chapter 1: Greek Museums in the Digital Age: Training Needs of Museum Professionals in the Framework of the Mu.SA Project, Artemis Stamatelou

7 | Chapter 2: The Training Needs of Museum Professionals in the Digital Field in Italy, Antonia Silvaggi, Romina Surace, Federica Pesce, Margherita Sani

13 | Chapter 3: Digital Competences Needs and Training in the Portuguese Museum Sector, Ana Carvalho e Alexandre Matos

21 | Chapter 4: Mu.SA: The Emerging VET Curricula, Spiros A.p. Borotis, Panagiota Polymeropoulou, Christos Pierrakeas, Konstantinos Giannakopoulos e Achilles Kameas

29 | Chapter 5: A Methodology for Realizing VET Curricula: The Mu.SA Case, Christos Pierrakeas, Panagiota Polymeropoulou, Spiros A.p. Borotis e Achilles Kameas

37 | Chapter 6: Insights from Piloting a Community Builder MOOC to Help Museum Professionals Facing 21st Century Challenges, Paula Menino Homem

45 | Chapter 7: Evaluation of the Mu.SA MOOC Course, Massimiliano Dibitonto, Katarzyna Leszczynska e Elisa Cruciani

51 | Chapter 8: Piloting the Specialization Courses of the Mu.SA project: Shifting Towards the Museum of the Future, Eleni Damianou e Giannis Panopoulos

55 | Chapter 9: Evaluation of the Mu.SA Blended Course, Massimiliano Dibitonto, Katarzyna Leszczynska e Elisa Cruciani

63 | Chapter 10: An Agenda for Digital Culture, Ivo Oosterbeek, Maria João Nunes, Ilídio Louro, Ana Fernambuco e Inês Câmara

69 | Chapter 11: Museums for Social Inclusion: Exploring Current Trends in Greek Museums, Artemis Stamatelou

73 | Chapter 12: The Future of Museums and Digital Transformation Challenges, Ana Carvalho e Alexandre Matos

81 | Conclusions

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Kameas, Achilles, e Panagiota Polymeropoulou, eds. 2020. The Future of Museum Professionals in the Digital Era – The Success Story of Mu.SA. Athens: Hellenic Open University Press. 83 páginas. ISBN: 978-618-84272-9-7. http://www.project-musa.eu/wp-content/uploads/2021/03/Mu.SA-e-book.pdf

Edição digital do Relatório final do Grupo de Projecto Museus no Futuro

Estão disponíveis as edições digitais* do Relatório Final e do Sumário Executivo (português e inglês) do Grupo de Projeto Museus no Futuro.

No seguimento do projeto criado por Resolução de Conselho de Ministros em fevereiro de 2019, o Grupo Museus no Futuro apresentou em novembro de 2020 os resultados do seu mandato à Ministra da Cultura. Na sequência de um processo de auscultação dos diretores dos Museus, Palácios e Monumentos da Direcção-Geral do Património Cultural e das Direções Regionais de Cultura e de subsequente discussão pública, os documentos finais contêm 50 recomendações que podem ser vertidas em medidas de política pública para este universo. As recomendações estão organizadas em torno de 5 eixos temáticos: Gestão de Museus; Redes e Parcerias; Transformação Digital; Gestão de Coleções; e Públicos e Mediação.

*Camacho, Clara Frayão, ed. 2021. Grupo de Projeto Museus no Futuro: Relatório Final. Direção-Geral do Património Cultural. Lisboa. 118 p. ISBN: 978-972-776-578-2. http://patrimoniocultural.gov.pt/static/data/docs/2021/02/15/RelatorioMuseusnoFuturo.pdf

Apresentação do relatório final do Grupo de Projecto Museus no Futuro

Na imagem vê-se Clara Frayão Camacho, a apresentar o projecto, a Ministra da Cultura, Graça Fonseca

Apresentação do Relatório Final do Grupo de Projecto Museus no Futuro, 4 Nov. 2020, Palácio Nacional da Ajuda. Foto de Joaquim Jorge

Clara Frayão Camacho apresentou o relatório final do Grupo de Projecto Museus no Futuro no passado dia 4 de Novembro de 2020, no Palácio Nacional da Ajuda. A sessão contou com a presença da Ministra da Cultura, Graça Fonseca, da Secretária de Estado Adjunta e do Património Cultural, Ângela Ferreira, e de vários membros do Grupo de Projecto.

O relatório apresenta recomendações e propostas que possam ser vertidas em medidas de política pública para Museus, Palácios e Monumentos dependentes da Direção-Geral do Património Cultural e das Direções Regionais de Cultura, tanto no curto prazo como no horizonte temporal dos próximos 10 anos. Inclui 50 recomendações em torno de 5 eixos temáticos: Gestão de Museus; Redes e Parcerias; Transformação Digital; Gestão de Coleções; e Públicos e Mediação.

Após a elaboração de um primeiro relatório preliminar divulgado em Julho de 2020 (https://nomundodosmuseus.hypotheses.org/9132), seguiu-se um processo de consulta pública, cujos contributos foram integrados neste relatório final.

O relatório final e o resumo executivo encontam-se disponíveis em:

http://www.patrimoniocultural.gov.pt/pt/news/museus-monumentos-e-palacios/grupo-de-projeto-museus-no-futuro-relatorio-final-e-sumario-executivo/

* O Grupo de Projeto Museus no Futuro (GPMF) resultou de uma iniciativa governamental: a Resolução do Conselho de Ministros (RCM) n.º 35/2019, de 18 de fevereiro.

Museus e sociedade digital: que desafios em Portugal?

na imagem vê-se uma mesa digital

À medida que sociedade se torna cada vez mais dependente das tecnologias, também as consequências para o sector de museus se tornam evidentes. As possibilidades de aplicação das tecnologias atravessam todas as áreas de actuação dos museus (gestão, comunicação, educação, exposição, gestão de colecções e envolvimento de públicos), desde o trabalho de bastidores ao acolhimento e relação com os públicos, e neste sentido, os desafios são multidimensionais. As mudanças perspectivam-se a diferentes níveis e a ritmos variáveis, admitindo, desde logo, a complexidade e as assimetrias do panorama museológico.

Neste artigo analisamos a situação actual dos museus portugueses face aos desafios da era digital, atendendo à investigação realizada no âmbito do projecto Mu.SA – Museum Sector Alliance (2016-2019). Tendo por base a realização de entrevistas e de um focus group, assim como revisão bibliográfica sobre o tema, a nossa análise salienta dois aspectos. Por um lado, a relevância da capacitação e do desenvolvimento profissional ao nível das competências digitais como dimensão central a considerar na adaptação dos museus à era digital. Por outro lado, e de forma interdependente, a necessidade de uma política museológica que promova orientações e, subsequentemente, os recursos necessários: humanos, financeiros e infraestruturas, atendendo a uma abordagem concertada e integrada. 

Pode ler o artigo na íntegra em: http://hdl.handle.net/10174/26032

O artigo, escrito por mim e pelo Alexandre Matos, foi publicado no 2.º número da Revista de Museus (Nov. 2019), publicação da responsabilidade editorial da Direção-Geral do Património Cultural.

Número especial da “Museum International” dedicado aos museus no mundo digital

Vê-se a capa do número

A revista Museum International acaba de publicar um número especial dedicado aos museus no mundo digital (n.º 277–278). Este número procura reflectir sobre o modo como os museus têm respondido aos desafios colocados pelo mundo digital. São exploradas várias perspectivas sobre o tema, compreendendo 12 artigos e uma recensão crítica.

O número inclui dois artigos portugueses. Um artigo assinado por Ana Carvalho e Alexandre Matos sobre os resultados de investigação da primeira fase do projecto Mu.SA – Museum  Sector Alliance relativamente ao caso português: Museum Professionals in a Digital World: Insights from a Case Study in Portugal). E ainda um artigo de Helena Barranha (Derivative Narratives: The Multiple Lives of a Masterpiece on the Internet) sobre o potencial criativo das colecções de arte em acesso aberto a partir do estudo de caso da obra The Portrait of Giovanna Tornabuoni (séc. XV) do pintor renascentista italiano Domenico Ghirlandaio, pertencente à colecção do Museo Nacional Thyssen‐Bornemisza, em Madrid. 

O número está disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/toc/14680033/2018/70/1-2 (mas apenas os resumos; os membros do ICOM têm acesso integral)

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A Museum International (ISSN: 277–278) é uma revista académica (com arbitragem por pares) que promove a partilha de conhecimento sobre museus e património no campo internacional.

A revista é publicada desde 1948 pela UNESCO (designando-se então por Museum) e, desde 1992 em parceria com a editora Wiley-Blackwell. Em 2013, a responsabilidade editorial passou para o Conselho Internacional de Museus (ICOM) e manteve-se a co-publicação com a Wiley-Blackwell. O primeiro número editado pelo ICOM é de 2014 e foi sobre a paisagem museológica brasileira (253-256). A revista tem desde 2017 um novo grafismo e uma nova comissão editorial. A gestão editorial é assegurada por Aedín Mac Devitt.

A Museum International publica dois números temáticos por ano, em papel e em suporte digital.

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Museum International, special issue: Museums in a Digital World, Vol. 70, n.º 277–278, 2018 (26 December)

ÍNDICE

3 | Editorial, by Aedín Mac Devitt

THE OBJECT, THE MUSEUM AND THE MUSEUM PROFESSION

8 | The Work of Art in the Age of Digital Reproduction, by Werner Schweibenz

22 | Derivative Narratives: The Multiple Lives of a Masterpiece on the Internet, by Helena Barranha

34 | Museum Professionals in a Digital World: Insights from a Case Study in Portugal, by Ana Carvalho and Alexandre Matos

48 | Capacity Building and Knowledge Exchange of Digital Technologies in Cultural Heritage Institutions, by Mona Hess, Amandine Colson and John Hindmarch

62 | Coworking Spaces, Accelerators and Incubators: Emerging Forms of Museum Practice in an Increasingly Digital World, by Oonagh Murphy

DIGITAL STRATEGIES FOR A CHANGING SECTOR

78 | Web Strategy in Museums: An Italian Survey Stimulates New Visions, by Sarah Dominique Orlandi, Gianfranco Calandra, Vincenza Ferrara, Anna Maria Marras, Sara Radice, Enrico Bertacchini Valentino Nizzo and Tiziana Maffei

90 | The Process Is Part of the Solution: Insights from the German Collaborative Project museum4punkt0, by Katrin Glinka

104 | The Destruction and Creation of a Cityscape in the Digital Age: Hiroshima Peace Memorial Museum, by Julie Higashi

114 | Digital Technology: The Panacea to Improve Visitor Experience and Audience Growth? By Davison Chiwara and Njabulo Chipangura

THE VISITOR EXPERIENCE AND CO‐CREATION

126 | Digital Pathways in Community Museums, by Catherine Anne Cassidy, Adeola Fabola, Alan Miller, Karin Weil, Simón Urbina, Mário Antas and Alissandra Cummins

140 | Heritage Communities, Participation and Co‐creation of Cultural Values: The #iziTRAVELSicilia Project, by Elisa Bonacini

154 | TripAdvisor Reviews of London Museums: A New Approach to Understanding Visitors, by Victoria D. Alexander, Grant Blank and Scott A. Hale

166 | The ‘Guggentube’ Phenomenon: Breaking the Boundaries of a ‘Digital Museum’ Space, by Natalia Grincheva

BOOK REVIEW

176 | Book Review, by Danielle O’Donovan and Tom Lonergan

178 | Museum International issues

Curso online e gratuito “Essential Digital Skills for Museum Professionals”: inscrições abertas

“Essential Digital Skills for Museum Professionals” é um “Massive Online Open Course” (MOOC) dirigido a profissionais de museus, estudantes, voluntários e desempregados, que desejam trabalhar no sector dos museus. O objectivo do curso é potenciar as competências digitais dos participantes e possibilitar a sua aplicação no seu trabalho diário. É online e gratuito.

As inscrições estão abertas até 30 de Setembro aqui: https://tinyurl.com/yacvttjh

Este curso é uma iniciativa do projecto Mu.SA – Museum Sector Alliance (2016-2019), que tem como objectivo conceber um conjunto de ferramentas educativas que promovam o desenvolvimento de competências digitais nos profissionais de museus. O projecto tem o financiamento da Comissão Europeia através do programa Erasmus +. O ICOM Portugal, a Universidade do Porto e a Mapa das Ideias fazem parte deste consórcio liderado pela Hellenic Open University (Grécia). 575907-EEP-1-2016-1-EL-EPPKA2-SSA. www.project-musa.eu

Mais informações sobre o curso “Essential Digital Skills for Museum Professionals” no site do ICOM Portugal: https://bit.ly/2LuQsgq